Flash Gordon

 


A música dos Queen neste filme é algo fenomenal. Os Queen escreveram toda a trilha sonora do filme. O baterista Roger Taylor explicou à revista Mojo em outubro de 2008: "Queríamos escrever a primeira trilha sonora de rock 'n' roll para um filme não musical. Na época, o rock 'n' roll não era usado em filmes, a menos que fossem especificamente sobre música. ."Brian May acrescentou: "Queríamos um álbum de trilha sonora que fizesse você se sentir como se tivesse assistido ao filme, então incluímos todos os diálogos e efeitos e os entrelaçamos como uma tapeçaria." Essa abordagem influenciou a forma como os álbuns de trilhas sonoras são lançados, já que agora é comum incluir linhas de diálogo do filme e outras citações nos álbuns de trilhas sonoras. Bons exemplos são as trilhas sonoras de Life on Mars, Ashes to Ashes, Pulp Fiction, Reservoir Dogs, Shaun of the Dead e Hot Fuzz.


A trilha sonora composta por ninguém menos do que o Queen, super-grupo britânico então no auge de sua fama e que lançara, no mesmo ano, o álbum The Game. Mas Flash Gordon é ao mesmo tempo mais e menos do que sua trilha sonora, sendo um dos raros exemplos de filmes que, se forem revistos pelos adultos que o assistiram pela primeira vez quando crianças, consegue sobreviver à mais inclemente crítica.


Claro que a trilha sonora é responsável por grande parte do apelo nostálgico da fita e por sua, digamos, importância histórica, mas sua gênese desavergonhadamente camp – ou brega, para falar português claro –  é de um charme irresistível, mesmo que saibamos que as atuações são tenebrosas, que os efeitos especiais são ruins mesmo para a época em que foram feitos e que o roteiro mais parece uma colcha de retalhos. Mas é que essa releitura do personagem criado por Alex Raymond, em 1934, na verdade, não é uma releitura e sim uma clara e direta homenagem aos quadrinhos do autor e, também, aos famosos serials dos anos 30, especialmente o primeiro, Flash Gordon no Planeta Mongo.


O famoso produtor italiano Dino de Laurentiis era, nas décadas anteriores ao lançamento, detentor dos direitos de adaptação do personagem e ele queria Federico Fellini na direção, que efetivamente chegou a entabular conversas com o produtor e a exercer o direito de opção de dirigir o filme. Mas o projeto não seguiu adiante (uma pena, pois seria interessantíssimo ver a pegada de Fellini sobre um material tão diferente das obras dele). George Lucas – sim, ele mesmo – tentou adquirir os direitos de De Laurentiis na década de 70, mas não conseguiu, decidindo então partir para seu “pequeno” projeto próprio, Star Wars (imaginem, caros fãs, se Lucas tivesse conseguido os direitos, talvez Star Wars não existisse!). O próximo da lista foi o britânico Nicolas Roeg (diretor dos excelentes A Longa Caminhada e Inverno de Sangue em Veneza), fã de Alex Raymond e que reescreveu o roteiro, o que gerou rusgas entre ele e De Laurentiis e que culminou em sua saída. Em seguida, o produtor procurou Sergio Leone , mas ele não aceitou, pois surpreendentemente considerou  o roteiro pouco fiel à criação de Alex Raymond (mais um diretor que eu pagaria para ver dirigindo ficção científica). Sem saída, De Laurentiis acabou contratando Mike Hodges, do clássico Carter – O Vingador e que vinha de uma ficção científica razoável – O Homem Terminal – seis anos anos antes e que dirigira parte de Damien: A Profecia II, em 1978, até ser defenestrado pela produção.


O roteiro ficou ao encargo de Lorenzo Semple Jr., que escrevera os ótimos Papillon (1973) e Três Dias do Condor (1975), além do tenebroso remake de King Kong, em 1976. A diretiva de De Laurentiis era clara: ele queria humor, que o filme se parecesse com o material fonte. O problema é que, para o produtor, “parecer com quadrinhos” efetivamente significava ser engraçado, algo que Flash Gordon nunca foi, mas o roteirista, bebendo diretamente da fonte, fez o que pode dentro desse estranho conceito, criando uma história de origem e primeira aventura de Flash Gordon no planeta Mongo exatamente como Alex Raymond desenhara e escrevera quase 50 anos antes. O resultado, como disse, pode causar arrepios em muitos hoje em dia pela mais pura “ruindade” de tudo que é visto na tela, mas o mero fato de a película ser uma espécie de serial dos anos 30 em plenos anos 80 (a década dos filmes inesquecíveis de ação, não é verdade?) já merece aplausos. E o espectador que simplesmente esnobar o filme como uma porcaria qualquer não terá capturado a essência do que se tentou fazer.

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