Free Guy centra-se em Guy, um NPC (personagem não jogável) do “Free City”, o videojogo da moda. Nesta espécie de combinação entre “Grand Theft Auto” e “Fortnite”, os jogadores podem fazer e ser o que quiserem, exceto Guy. Guy levanta-se todas as manhãs, cumprimenta o seu peixe, veste-se, toma o pequeno-almoço e vai trabalhar no banco, onde será assaltado algumas vezes durante o dia. Ele não sabe que vive num videojogo e acredita que a sua vida é perfeita como está. Até que se cruza com uma jogadora, Molotov Girl (Jodie Comer), pela qual se apaixona e decide abandonar a sua programação habitual, desencadeando uma série de situações surpreendentes.
Este pormenor do "despertar" do NPC não é explicado a razão dele ganhar consciência.
Ao longo da carreira, Shawn Levy, que no filme "Primeiro Encontro" e em Stranger Things mostra uma habilidade cinematográfica, em Free Guy o filme é meio meio. O filme lida com vários conceitos com resultados bastante interessantes, a começar com a questão dos videojogos, talvez o osso mais duro de roer. O filme tira partido de um cenário absolutamente delirante para brincar com o humor físico, tão exagerado que só seria possível num videojogo, para encher o ecrã de estímulos visuais e sonoros e surpreender com coisas que só poderiam ocorrer num mundo como “Free City” e para prestar homenagem à cultura gamer. A cidade está repleta de chamadas de atenção e dinâmicas que qualquer pessoa que já tenha pegado num comando irá compreender. O facto de se tratar de um videojogo “original”, apesar das referências claras, funcionou muito bem para que até os jogadores o considerem novo e inovador. Pelo menos, os jogadores ver-se-ão refletidos no filme, algo que a maior parte dos filmes baseados em videojogos não foram capazes de fazer.
São abordadas algumas das principais problemáticas da indústria dos videojogos, como o crunch (explorar os funcionários de modo a conseguir lançar o jogo na data estipulada) ou o facto de uma grande empresa “engolir” uma mais pequena e fazer o que quer com as suas criações. O conflito da personagem interpretada por Jodie Comer no mundo real é que esta e o seu parceiro Keys (Joe Keery) desenvolveram um jogo indie em mundo aberto com inteligência artificial inovadora e estão convencidos de que a Soonami, uma empresa liderada por Antwan (Taika Waititi), roubou o seu projeto para criar “Free City”. Millie joga por forma a encontrar provas do roubo dentro do jogo. Este “filme de ação” presente no universo de Free Guy funciona igualmente como veículo para que as personagens de Reynolds e Comer se aproximem. Os dois têm química e fazem com que o outro género que coexiste em Free Guy, a comédia romântica, encaixe perfeitamente naquele universo. Na verdade, o peso que o romance tem no filme é surpreendente e, apesar de se tratar acima de tudo de uma comédia de ação, os momentos mais leves não destoam, embora o filme tenha um final bastante açucarado.
Nunca pensei que uma conspiração de jogos e direito de propriedade intelectual originasse argumento para um filme e nesse aspeto estão de parabéns.
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