Em 1870 é enviado ao Japão o capitão Nathan Algren (Tom Cruise), um conceituado militar norte-americano. A missão de Algren é treinar as tropas do imperador Meiji (Shichinosuke Nakamura), para que elas possam eliminar os últimos samurais que ainda vivem na região. Porém, após ser capturado pelo inimigo, Algren aprende com Katsumoto (Ken Watanabe) o código de honra dos samurais e passa a ficar em dúvida sobre que lado apoiar.
O homem branco, geralmente americano, salvando um povo nativo em face a exterminação. Esta é uma história contada múltiplas vezes no cinema em diferentes gêneros e épocas, como por exemplo em Dança com Lobos, A Grande Muralha, entre outros, e se imaginaria que O Último Samurai seguiria o mesmo caminho, entretanto tem algo nesse filme que o distingue dos demais, ignorando o clichê hollywoodiano de que o herói americano é superior aos nativos ou a cultura deles. Entretanto, é importante ressaltar que ainda houve criticismo na época, principalmente quanto a publicidade do filme, que passava uma mensagem não tão sutil encorajando o público a perceber (erroneamente) o homem branco – e não um japonês – como o último grande líder da antiga cultura japonesa. Mas a real mensagem que a fita tenta conceber ao espectador é exatamente o oposto.
O filme conta a história de Nathan Algren (Tom Cruise), um veterano de guerra alcoólatra com nenhum propósito em sua vida, sendo contratado para treinar um exército para o imperador japonês para lutar contra a rebelião samurai durante a Restauração Meiji no Japão do século 19. Na sua primeira batalha, Algren é capturado pelos inimigos e deve passar um tempo com uma cultura nativa completamente diferente da sua, junto de Katsumoto (Ken Watanabe), um samurai orgulhoso, lutando contra o império, enquanto mantém-se leal a tradição do que o imperador representa. O enredo do filme foi inspirado na Rebelião Satsuma de 1877 liderada por Saigō Takamori e na ocidentalização do Japão por potências estrangeiras, embora no filme os Estados Unidos sejam retratados como a principal força por trás desse impulso.
O diretor e co-roteirista Edward Zwick junto do produtor-estrela Tom Cruise fizeram um épico do século 19 que ganha força ao explorar uma série de terrores contemporâneos: o medo do armamento moderno, do comércio frio destruindo a natureza e a cultura antiga, e de uma integridade americana em desaparecimento. A inegável voltagem da estrela de Cruise torna tudo palatável, e o filme é lindo de se ver e ouvir, desde as colinas verdes e os cavalos galopando até a música tema Lohengrin na trilha sonora.
Apesar de Cruise ser a “face” do filme, esta película não é necessariamente sobre seu personagem, mas sim sobre dois guerreiros divididos por culturas distintas. Dois protagonistas representando duas culturas em guerra uma com a outra, aprendendo a se respeitar e eventualmente se tornarem amigos. Entre a comunidade samurai, Algren gradualmente passa a entender seu modo de vida, sua disciplina e devoção a perfeição, encontrando algo neles que achava não existir mais: honra. E no final, acaba decidindo lutar com eles por uma causa nobre. Ken Watanabe traz um poder sereno para seu papel como Katsumoto, o líder samurai, bem como um magnetismo que lhe permite segurar a tela com Cruise. Ele pode parecer um pouco razoável e afável demais para um chefe de samurai da vida real – ou mesmo um chefe de samurai em um filme de Kurosawa – mas ele é o samurai de que esse filme precisa. O fato de Watanabe sobressair-se nas cenas na qual o grande líder faz pouco, exceto acenar maravilhado com a sabedoria de Algren, é uma medida da dignidade inata do ator.
Apesar das sequências de batalha serem épicas, fantasticamente bem montadas e emocionantes, o mais interessante é que o resultado não importa, não é sobre quem vence, e sim o que pode ser provado com a morte. E o foco do filme não é a guerra, e sim sobre esses dois guerreiros, um líder samurai que tenta entender seu inimigo e um homem quebrado procurando paz, testemunhando a cultura samurai em seus dias finais. Na superfície, esses dois personagens não poderiam ser mais diferentes, o que é a maior razão do diálogo entre eles ser tão eloquente e confrontador, e sua relação de amizade tão convincente. E não é apenas os dois, Taka (Koyuki Kato), esposa de um samurai morto por Nathan Algren, irmã do Senhor Katsumoto, Nobutada Moritsugu (Shin Koyamada), filho de Katsumoto, e Ujio (Hiroyuki Sanada), um dos samurais mais dedicados, leais e ferozes da comunidade, são personagens que ajudam o espectador a entender os diferentes papéis, classes e personalidades dessa cultura, enquanto impulsionam e moldam os arcos dos protagonistas, e são bem desenvolvidos em suas próprias subtramas.
Como dito anteriormente, existem inúmeros momentos épicos neste filme, desde a primeira batalha contra os samurais na floresta, até o emocionante combate final, porém existe uma cena em especial que considero umas da melhores experiências visuais na história do cinema. Enquanto está cativo, Algren acaba tendo um duelo com o samurai Ujio, com bastões de madeira. O personagem de Cruise é derrotado múltiplas vezes mas continua se levantando, enfurecendo seu oponente. Afinal, na mente de Ujio, ele venceu após o primeiro duelo. Se as armas fossem katanas reais e não de madeira, Algren estaria morto e o fato de não poder admitir sua derrota é vergonhoso e uma afronta a tudo que ele acredita. Entretanto, na cabeça de Algren, ele ainda não havia morrido, portanto, a luta não havia acabado. Duas formas diferentes de pensamento. Por um lado, se você aceitar sua derrota, você perde com honra e lutar novamente é desrespeitoso, e pelo outro lado, desistir é visto como fraqueza e lutar continuamente é considerado força de vontade. Uma cena vívida e espetacular que serve como metáfora para diferentes culturas do ocidente e oriente, sem sequer a necessidade de diálogo.
A perspectiva de Nathan nos permite descobrir os jeitos simples dos samurais através de seus olhos, e a doída transição de um país que valoriza sinceridade e honra até a morte, para um Japão frio e impulsionado pela tecnologia. O final de O Último Samurai encapsula isso de forma perfeita, o fim dos samurais e o começo de um Japão industrializado. O domínio da espada e do arco substituídos pela produção em massa de armas de fogo. Esta era na história japonesa, o confronto entre o antigo xogunato e os modernistas de aparência ocidental, poderia ter sido contada de uma maneira diferente. Poderia ter sido a história de um grande povo escapando das garras do medievalismo e assumindo seu lugar de direito entre as nações do mundo. Mas esse não é o ponto de vista em ação aqui. Os samurais são retratados como disciplinados e sábios, e Zwick leva seu tempo, demorando-se no idílio bucólico de Algren e mergulhando na política japonesa do século 19 e na cultura dos samurais. Nunca para de surpreender como filmes são capazes de nos formar e nos afetar. Este é o tipo de obra que te faz questionar suas próprias crenças e sua forma de vida, entregando um novo apreço e conhecimento por um estilo de vida memorável.

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