The Man In The High Castle Final


 A primeira tempora analisada aqui foi excelente e estávamos à espera de algo em grande. Mas as séries de viagens no tempo são sempre complicadas, basta relembrar o exemplo de Lost.... Estavamos com grandes expetativas para uma narrativa baseada em dados cietificamente comprovados.

A ficção (tanto escrita como visual) sempre foi baseada na extrapolação de uma ideia, das ramificações do processo de imaginação que sempre começa com uma pergunta. E se o Japão Imperial e a Alemanha Nazista tivessem ganhado a guerra e dividido o mundo entre duas forças ditatoriais opostas? Philip K. Dick atreveu-se  a imaginar e conseguiu criar uma obra que é relativamente curta, mas cheia das mais diversas camadas exploratórias. Com muito dito nas entrelinhas e com uma trama que se usava de muito do misticismo para imaginar um mundo distópico pós-guerra, “O Homem do Castelo Alto” entrou para o rol das obras fantásticas mais importantes da literatura.

E foi Frank Spotnitz que abraçou a tarefa de transpor a intricada trama escrita para uma versão televisiva produzida pela Amazon, ainda no começo de seu serviço de streaming. “The Man in the High Castle” foi corajosa ao expandir pouco mais de 300 em material para 4 temporadas. Isso deu espaço para que houvessem acertos e erros, já que muito precisou ser criado e refinado, além da interpretação (ou releitura) daquilo que já existia no livro. Essa quarta e última temporada mostra que a série acertou muito, mas também demonstra que talvez o final deveria ter chegado em temporadas passadas.

O quarto ano demonstra um tratamento de personagem muito bem planejado, para alguns. Nomes importantes da trama se despediram de maneira apressada somente para criar choque e movimentação na trama, enquanto novos personagens entraram somente para servirem de apoio aos já existentes, de maneira a criar uma empatia que já existia. Dentro desses novos núcleos, novas faces do sistema ditatorial apareceram, assim como novas conexões e paralelos com a história real também foram construídos, mas em meio ao já complicado fluxo de pensamento desenvolvido pela narrativa, tudo ficou muito superficial e não se aprofundou como deveria.

Passou-se um ano desde o final da temporada passada e com ele muita coisa aconteceu. A série não se preocupa em fazer um resumo ou rememoração, simplesmente joga o espectador no meio da ação e deixa com que ele faça suas próprias conexões. Se por um lado isso valoriza a inteligência de quem está do outro lado da tela, por outro tudo fica muito confuso com novos rostos de importância tomando a tela, enquanto os antigos nomes somem sem deixar vestígios. O que mais me incomodou nesse quesito foi a morte de Tagomi. O personagem de Cary-Hiroyuki Tagawa já tinha encontrado seu final de certo modo na temporada passada, mas aqui ele é descartado sem nenhuma cerimônia em prol da ação. O tratamento dado a importância do personagem foi diminuído pelo choque e pela noção de vingança que surgiria em outros, principalmente no Inspetor Kido (Joel de la Fuente), que foi deslocado para um novo plot devido a esse ocorrido.

Essa temporada constrói o panorama vinte anos após a invasão, caindo assim no mesmo período em que a Guerra Fria e os movimentos sociais e comunistas surgiam pelo mundo real. Assim, o jogo de traição entre as duas potências continua não só entre elas, mas dentro delas. É interessante notar a constante queda de braço pelo poder e as posições alegóricas adquiridas pelas peças principais do jogo formado entre Japão e Alemanha. As constantes puxadas de tapete e traições dão uma dinâmica imediatista bem-vinda a narrativa, tornando a ação física elaborada desnecessária em comparação. Sim, a série prometeu batalhas grandiosas na divulgação, mas grande parte dessas batalhas são travadas dentro de salas, em diálogos afiados ou emocionais, não em campos repletos de explosões e pirotecnia. Se algumas delas funcionam, outras soam muito inverossímeis ao ponto de serem quase caricatas, principalmente no penúltimo episódio onde a cúpula nazista é eliminada com uma facilidade vergonhosa. Mas nada que tome o brilho da temporada como um todo.

Dentro dos contextos históricos transpostos para a série, o mais interessante deles foi a ascensão do comunismo. Não só pelas constantes referências as batalhas na China, (que equivaleriam a revolução chinesa de Mao Tsé-Tung), mas também pela RCN (Revolução Comunista Negra), que seria o equivalente aos Panteras Negras. A RCN, principalmente na figura de Bell Mallory (Frances Turner), serviu para mostrar um elemento até então ignorado pela série que era a situação da população negra dentro desse mundo. A série então pinta um quadro condizente com a ideologia nazista (extermínio nos campos de concentração), mas também aproveita para criticar o tratamento dado a essa população do lado de cá da tela. É vergonhoso que mesmo com a evolução social alcançada e leis de proteção a respeito, muito do comportamento nascido dentro dos regimes fascistas ainda continue vigente. Aliás, essa série serve como um espelho para mostrar como estamos nos aproximando perigosamente de ideais hediondos em nome do conservadorismo, um movimento não só nacional, mas também mundial.

No entanto, apesar do prometido encerramento, dos contornos épicos e científicos trabalhados até então, a grande temática da quarta temporada é a família. Principalmente quando se foca na figura de John Smith (Rufus Sewell). Desde que ele descobriu o vídeo do filho vivo em nossa realidade na temporada passada, os contornos de tragédia grega foram ficando claros na linha narrativa do personagem. É um movimento arriscado tornar o vilão em alguém merecedor de empatia, mas o tratamento dado a ele é mais próximo do anti-herói. Smith termina a série dividido não só entre dois ideais, mas também entre dois mundos. A relação dele com Helen (Chelah Horsdal) atinge o ponto de ruptura, quando ambos se veem envoltos em escolhas impossíveis e observam o desmoronamento familiar se aproximando sem poder fazer nada. O background da família Smith é explorado desde os seus primórdios até o seu trágico e agridoce final, fazendo com que o trabalho dos dois atores sejam os maiores destaques dessa temporada e de toda a série.

Juliana Crain (Alexa Davalos) acaba perdendo importância perante o desenvolvimento do casal ariano. A interação dela com Wyatt Price (Jason O’Mara) consegue engrenar em alguns momentos, mas o estado perdido em que a personagem se encontra foi um dos dissabores desse encerramento. A capacidade de ela atravessar entre mundos acaba sendo deixada de escanteio, usando a personagem como apenas uma muleta narrativa, um deus ex machina que serve para que os momentos finais do show aconteçam, sem nenhuma importância além disso.  Entre momentos de projeção astral e missões disfarçadas, a guia de revolução acaba terminando como um personagem subaproveitado da narrativa.

Um texto da Newsweek explica o livro termina com Juliana Crain (interpretada na série por Alexa Davalos) descobrindo que The Grasshopper Lies Heavy, um livro proibido escrito por Hawthorne Abendsen (Stephen Root) que retrata um mundo onde os Aliados venceram a Segunda Guerra Mundial, é real e que os personagens estão vivendo em uma realidade falsa.

No livro, Hawthorne (também conhecido como O Homem do Castelo Alto) é chamado de "um quadro de referência externo", cuja obra permite aos leitores perceber que a realidade em que vivem não é a única realidade possível. Cada pessoa de outra realidade que atravessa o portal, presumivelmente de um lugar onde os Aliados venceram a guerra, fornece seu próprio quadro de referência vivo que, uma vez misturado à população da GNR, deve ajudá-la também a perceber que a realidade em que vivem pode ser diferente.

Possivelmente os argumentistas da série não quiseram elevar o patamar para os universos alternativos.

O Vídeo resumo aqui

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